A Última Floresta


Comida era coisa que raramente preocupava Flora. Bastava sair à porta da sua toca e não faltavam Plantas frescas, Frutinhas apetitosas, As frutinhas davam água na boca, a qualquer coelhote mais guloso. Só no fim do Verão, antes das primeiras chuvas, quando a vegetação começava a amadurecer, é que a coelha Flora, depois de tomar as devidas precauções, se aventurava até às hortas dos homens.
Enfim... tinha aquilo a que se costuma chamar uma vida regalada.
Naquela tarde não conseguiu fazer a sesta e encontrava sentada à porta de casa quando viu a sua vizinha Anafada, uma lebre bem gorducha que media quase tanto de largura como de comprimento e que passava, uns metros abaixo. Perguntou-lhe:
— Olha lá, que barulhos infernais são aqueles que se ouvem lá para os lados das hortas?
— Não sei bem. Fui matar a sede no rio e estava um grupo de raposas debaixo do castanheiro velho, acho que eram aquelas que vivem lá para as bandas do Cabeço, a dizerem, com ar de preocupadas, que vai passar aqui uma estrada muito larga!!!
— O quê?! Bem me dizia o coração que não era nada de bom! Mas tinha fé que não fosse assim tão trágico! O que há-de ser de nós? O que acontecerá aos meus filhos? — disse a coelha Flória com a voz trémula e as lágrimas sustidas a custo.
— Tenho vindo a pensar nisso. E eu que mal me consigo arrastar. Ainda bem que não tenho filhotes. Mas temos de ter calma, alguma solução há de arranjar.
— Como?! Não vês que estamos cercados e encurralados por casas, hortas, fábricas, pela barragem... sei lá que mais! Além deste, não conheço outro local onde possamos sobreviver!
— As raposas também estavam dizendo o mesmo! No entanto... talvez alguém mais viajado, mais conhecedor de terras distantes, conheça alguma floresta, ainda que pequena, onde, sem grandes sobressaltos e com poucos perigos, consigamos arranjar um buraco — disse a lebre pondo em prática toda a sua experiência adquirida ao longo da sua já longa vida.
— Deus queira que sim. Olha vou para dentro. Estou tão preocupada, mais pelos meus filhos do que por mim, que nem me da vontade de conversar. Até amanhã.
— Até amanhã e tem calma — despediu-se também a lebre Anafada.
A coelha entrou e fechou a porta. Quando os seus filhotes sentiram o barulho da fechadura vieram abraçar a mãe. O mais pequenote, chamado Espertezas, que não costumava deixar "fazer o ninho atrás da orelha", perguntou:

— Mamãe, por que esta tão nervosa e com os olhos tão vermelhos?
— Vi ali abaixo um cão enorme, quase tão grande como um burro!! — desculpou-se a coelha Flora.
— Não deve ser por isso! Já estiveram muitos cães farejando e de sentinela à nossa porta e você nunca teve medo! — insistiu o filho Espertezas.
— Mas este cão era muito grande, maior do que um burro!!
— Se era assim tão grande, ficamos mais descansados! — disse o Espertezas com grande calma.
— Porquê? — perguntaram os três irmãos ao mesmo tempo.
— Ora essa! Porque não cabe na porta e não pode entrar aqui dentro — respondeu o Espertezas com ar de grande sábio.
— Tem razão! — disseram os seus irmãos simultaneamente. — Vá, está na hora de ir dormir — interrompeu a mãe, dando a conversa por encerrada.
Os filhotes rapidamente adormeceram mas a coelha não conseguia pregar olho. Andando lentamente abriu a porta e saiu para a rua. Sem saber onde estava e o que fazia, ela se encontrou com pinheiro.— Boa noite Flora! — Flora se assustou, sem querer, deu um salto. — Não tenha medo, Flora, sou eu, o teu amigo bufo Noitivanas! Não é costume andar a essa hora fora de casa.
— Não consigo dormir! A Anafada disse que vai passar por aqui uma enorme estrada e eu não sei para onde hei de ir com os meus filhos! — lamentou-se a Flora.
— Olha que a lebre tem razão! Pensei que já sabia. As máquinas devem aqui chegar na próxima semana!
A coelha não conseguiu suster mais as lágrimas, rompeu em grande pranto e começou a gritar:
— Ai os meus queridos filhos! Ai os meus queridos filhos!
O Noitivanas desceu do pinheiro, abeirou-se da sua amiga, passou-lhe a asa pelo focinho e disse-lhe:
— Que é isso?! Não chore, Flora! Como sabe eu viajo muito todas as noites. Às vezes vou para uma pequena floresta, a última que ainda existe nestas redondezas e que fica a uma légua para além da última casa. Amanhã faz as malas e, pela calada da noite, atravessa a povoação e muda para lá com os teus pequenos.
Seguindo o conselho de Noitivanas, flora pegou seus filhos e foi a Última Floresta, Na Última Floresta tinha muita grama verde, Pés de Alface, E Pés de todos os tipos de frutas, E Não tinha barulho nenhum, E Flora e seus filhos adorou o lugar, E Assim viveram felizes para sempre.
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